{"id":1,"date":"2025-08-05T20:00:00","date_gmt":"2025-08-05T23:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/?p=1"},"modified":"2025-08-08T21:20:17","modified_gmt":"2025-08-09T00:20:17","slug":"ola-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/2025\/08\/05\/ola-mundo\/","title":{"rendered":"6. Semin\u00e1rio (30\/10) &#8211; Lindolfo Roberto Nascimento &#8211; Extremidades: po\u00e9tica do funk em &#8220;Desabafo 2&#8221;\u00a0 (videoclipe de MC Poze do Rodo, Brasil, 2025)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Lindolfo Roberto Nascimento <\/em>(PUC-SP)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Christine Mello <\/em>(PUC-SP\/UERJ)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Revista para publica\u00e7\u00e3o: <\/strong>CONCINNITAS (PPGARTES\/UERJ)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>RESUMO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Utilizando a <em>abordagem das extremidades<\/em> (MELLO, 2017) como jogo de leitura, analisaremos o videoclipe &#8220;Desabafo 2\u201d de MC Poze do Rodo (2025), de modo a compreender como tal produ\u00e7\u00e3o audiovisual produz imagens de contra-ataque \u00e0 <em>criminaliza\u00e7\u00e3o do funk<\/em> (CYMROT, 2022), atrav\u00e9s do encadeamento de imagens da pris\u00e3o e da soltura do artista citado. Ao fim, a inten\u00e7\u00e3o do presente texto \u00e9 questionar: como a articula\u00e7\u00e3o audiovisual em imagens, m\u00fasica e oralidade podem atuar contra o <em>racismo e a discrimina\u00e7\u00e3o nas redes digitais<\/em> (SILVA, 2002)?<\/p>\n\n\n\n<p>Palavras-chave: <em>Funk Brasileiro; v\u00eddeo; racismo; extremidades<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>ABSTRACT<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Using the extremities approach (MELLO, 2017) as a reading game, we will analyse the music video \u201cDesabafo 2\u201d by MC Poze do Rodo (2025), in order to understand how this audiovisual production produces images that counteract the criminalization of funk (CYMROT, 2022), by linking images of the arrest and release of the aforementioned artist. Finally, the aim of this text is to ask: how can audiovisual articulation of images, music and orality act against racism and discrimination on digital networks (SILVA, 2002)?<\/p>\n\n\n\n<p>Keywords: <em>Brazilian<\/em> <em>Funk; video; racism; extremities<\/em><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Este artigo prop\u00f5e, a partir de uma perspectiva comunicacional, uma leitura cr\u00edtica do videoclipe \u201cDesabafo 2\u201d do MC de funk Poze do Rodo, \u00e0 luz da no\u00e7\u00e3o de <strong>\u201cextremidades\u201d<\/strong> formulada por Christine Mello (Rio de Janeiro, 1966), segundo a qual obras de arte contempor\u00e2neas &#8211; e neste contexto entendemos sobretudo as de ordem perif\u00e9ricas &#8211; operam nas margens, atrav\u00e9s de imagens traum\u00e1ticas e sob a l\u00f3gica da desconstru\u00e7\u00e3o destas.<\/p>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise considera ainda o pensamento de Tarc\u00edzio Silva (2022), que contribui para pensar como o racismo opera tamb\u00e9m por meio de imagens nas redes, possibilitando sujei\u00e7\u00f5es e micro agress\u00f5es. Ao situar \u201cDesabafo 2\u201d nessa linha de pensamento, defendemos que o videoclipe n\u00e3o apenas documenta uma experi\u00eancia individual de repress\u00e3o, mas performa uma resposta est\u00e9tica coletiva nas redes, capaz de tensionar e contribuir com a reconfigura\u00e7\u00e3o das formas como o funk, o p\u00fablico funkeiro e seus artistas s\u00e3o representados.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta obra audiovisual \u00e9 criada a partir da pris\u00e3o de Marlon Brando Coelho Souto Silva &#8211; nome de batismo do artista popularmente conhecido como MC Poze do Rodo &#8211; em 29 de maio de 2025, deten\u00e7\u00e3o amplamente noticiada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o e recompartilhada incont\u00e1veis vezes nas redes sociais, o que reacendeu o debate sobre a criminaliza\u00e7\u00e3o do funk e de seus artistas como parte de um processo hist\u00f3rico de estigmatiza\u00e7\u00e3o racial e territorial, baseado em ideias racistas e classistas acerca do povo perif\u00e9rico, de sua cultura, e de seus artistas, num processo de subjuga\u00e7\u00e3o daqueles que conseguem ascender socialmente atrav\u00e9s do funk. Estas mesmas imagens possibilitaram a cria\u00e7\u00e3o do videoclipe \u201cDesabafo 2\u201d como um manifesto e um contra-ataque est\u00e9tico \u00e0 criminaliza\u00e7\u00e3o do artista. Da\u00ed a import\u00e2ncia de uma an\u00e1lise criteriosa dessa obra audiovisual, de maneira a entendermos como a constru\u00e7\u00e3o de imagens atuam a servi\u00e7o do racismo e da desigualdade, e como tamb\u00e9m podem ser pensadas no sentido oposto, de modo a combater tais males sociais profundamente arraigados em nossa cultura.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>DESABAFO 2<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>\u201cDesabafo 2\u201d \u00e9 um v\u00eddeo <em>one single channel, <\/em>dirigido por Igor Vargas, Produzido pela gravadora <em>Mainstreet Records <\/em>e <em>Maze Company, <\/em>com produ\u00e7\u00e3o musical de Portugal no Beat, publicado na plataforma de v\u00eddeos YouTube no canal do MC Poze do Rodo, com 2 minutos e 38 segundos de dura\u00e7\u00e3o, nos quais se mesclam reprodu\u00e7\u00f5es de cortes de v\u00eddeo de sua pris\u00e3o, divulgados em telejornais, imagens de sua soltura, com amplo acompanhamento popular e pedidos de soltura, a carreata que acompanhou seu trajeto de volta para casa, o reencontro com familiares, bem como depoimentos indignados do artista para ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o ap\u00f3s sua soltura. Sua publica\u00e7\u00e3o, ocorrida em 4 de junho de 2025, acontece no dia seguinte \u00e0 soltura do artista via <em>habeas corpus<\/em>, ap\u00f3s 5 dias de sua deten\u00e7\u00e3o &#8211; por suposta apologia ao crime e envolvimento com o tr\u00e1fico &#8211; e intenso debate p\u00fablico sobre uma reacesa pol\u00eamica acerca da criminaliza\u00e7\u00e3o do funk.<\/p>\n\n\n\n<p>As linguagens que se hibridizam neste objeto de an\u00e1lise s\u00e3o a videogr\u00e1fica, musical, perform\u00e1tica e oral, com predomin\u00e2ncia da linguagem do v\u00eddeo, que \u00e9, em sua origem, uma linguagem j\u00e1 altamente contaminada, e que, justamente por isso, deve ser buscada \u201cjustamente onde ele (o v\u00eddeo) est\u00e1 respondendo a necessidades novas, fazendo desencadear consequ\u00eancias n\u00e3o experimentadas anteriormente\u201d. Esta \u00e9 Christine Mello citando o pensamento de Arlindo Machado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza heterog\u00eanea de tal linguagem (MELLO, p.28, 2008).<\/p>\n\n\n\n<p>De maneira que podemos entender que \u00e9 justamente essa natureza impura do v\u00eddeo e suas potencialidades, que possibilitaram, que algo corriqueiro entre m\u00fasicos, como a feitura de um videoclipe, fosse aqui redimensionado para ser, n\u00e3o a pe\u00e7a de divulga\u00e7\u00e3o de uma m\u00fasica, como costumeiramente ocorre, mas: 1) um poderoso ve\u00edculo de documenta\u00e7\u00e3o do fato ocorrido; 2) uma recria\u00e7\u00e3o da narrativa em torno da pris\u00e3o e midiatiza\u00e7\u00e3o desta; e sobretudo 3) um manifesto formador de novas imagens do artista funkeiro (que passa ent\u00e3o de um criminoso sumariamente sentenciado pela opini\u00e3o p\u00fablica a artista criminalizado). &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre Poze, nascido em 1999 no bairro de Santa Cruz, zona oeste do Rio de Janeiro, mais especificamente na Favela do Rodo &#8211; comunidade referenciada em seu vulgo, pr\u00e1tica esta comum entre MC\u2019s de funk -, despontou em 2019 ap\u00f3s o sucesso de sua m\u00fasica \u201cOs Crias do Flamengo\u201d, com fama crescente desde ent\u00e3o, cantando os g\u00eaneros trap e funk proibid\u00e3o (subg\u00eanero do funk que aborda tem\u00e1ticas ligadas ao crime). Em rela\u00e7\u00e3o ao diretor do v\u00eddeo, Igor Vargas, n\u00e3o foi poss\u00edvel localizar mais informa\u00e7\u00f5es sobre sua biografia al\u00e9m da informa\u00e7\u00e3o de que \u00e9 diretor de cria\u00e7\u00e3o, bem como sua associa\u00e7\u00e3o com as empresas MainStreet (@mainstreet) e Maze Company (@maze_hub) em sua bio da rede social Instagram. O mesmo ocorre em rela\u00e7\u00e3o ao produtor musical Portugal no Beat, do qual tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel encontrar muita informa\u00e7\u00e3o pessoal, mas \u00e9 sabido que ele produziu artistas de destaque da m\u00fasica urbana atual, como Baco Exu do Blues, Oruam, Filipe Ret, Wiu, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse time, trabalhando no ato dos desdobramentos da pris\u00e3o e posterior soltura de Poze do Rodo, constr\u00f3i uma po\u00e9tica de resist\u00eancia e reivindica\u00e7\u00e3o \u00e0 dignidade que se op\u00f5e diretamente \u00e0 est\u00e9tica midi\u00e1tica da criminaliza\u00e7\u00e3o, ao reverter a imagem criminosa que se tentou colar ao cantor. Mais do que um desabafo individual, a obra se constitui como um manifesto visual que reivindica o direito de existir e se expressar com complexidade e humanidade, tocando de forma profunda em anseios coletivos da popula\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica, como dignidade em abordagens policiais e liberdade de express\u00e3o, direito que &#8211; \u00e9 sempre bom lembrar &#8211; \u00e9 constitucional, mas que nem sempre se realiza na pr\u00e1tica, sobretudo quando falamos de grupos vulnerabilizados e corpos desviantes-perif\u00e9ricos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>DESABAFO 2 NAS EXTREMIDADES<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><\/h3>\n\n\n\n<p>Antes de adentrarmos na an\u00e1lise do videoclipe de \u201cDesabafo 2\u201d, propomos um aporte sobre o mecanismo de opera\u00e7\u00e3o do racismo a partir de Achille Mbembe (Otele,\u00a0Camar\u00f5es, <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/1957\">1957<\/a>) seguido de uma breve contextualiza\u00e7\u00e3o dos eventos que antecedem a produ\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o de tal obra videogr\u00e1fica:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">\u00c9 t\u00edpico da ra\u00e7a ou do racismo sempre suscitar ou engendrar um duplo, um substituto, um equivalente, uma m\u00e1scara, um simulacro. Um rosto humano aut\u00eantico \u00e9 convocado a aparecer. O trabalho do racismo consiste em releg\u00e1-lo ao segundo plano ou cobri-lo com um v\u00e9u. No lugar desse rosto, faz-se emergir das profundezas da imagina\u00e7\u00e3o um rosto de fantasia, um simulacro de rosto e uma silhueta que, desse modo, tomam o lugar de um corpo e um rosto humanos. O racismo consiste, pois, em substituir aquilo que \u00e9 por algo diferente, uma realidade diferente. (MBEMBE, p.69, 2018)<\/p>\n\n\n\n<p>Partindo da hip\u00f3tese de que a opera\u00e7\u00e3o policial que resultou na deten\u00e7\u00e3o de Poze do Rodo foi engendrada para gerar imagens de criminalidade, e assim refor\u00e7ar a associa\u00e7\u00e3o entre funk, cometimento de delitos e desordem, podemos afirmar, a partir do pensamento de Mbembe, que o rosto real do artista foi substitu\u00eddo pelo v\u00e9u, ou pelo rosto de fantasia do criminoso, tomando o lugar do rosto humano de Poze. E aqui n\u00e3o afirmamos inoc\u00eancia (j\u00e1 que tal afirma\u00e7\u00e3o deve se dar caso a caso), mas questionamos a sujei\u00e7\u00e3o de criminalidade a que corpos negros s\u00e3o pr\u00e9via e instantaneamente submetidos sem o devido processo legal.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Podemos assim incluir tal opera\u00e7\u00e3o em um longo hist\u00f3rico de criminaliza\u00e7\u00e3o, de car\u00e1ter midi\u00e1tico e policial, que ocorre desde a primeira onda de populariza\u00e7\u00e3o do movimento funkeiro, ainda na d\u00e9cada de 1990 (CYMROT, 2022). Essas imagens, traum\u00e1ticas, refor\u00e7am ideias preconceituosas e discriminat\u00f3rias acerca da cultura funkeira e do povo negro. Contudo, as imagens da liberta\u00e7\u00e3o do artista, que culminou com o lan\u00e7amento do videoclipe <strong>\u201cDesabafo 2\u201d, <\/strong>&#8211; apenas um dia ap\u00f3s sua soltura \u2013 invertem essa l\u00f3gica, oferecendo uma resposta est\u00e9tica contundente \u00e0s imagens veiculadas originalmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua pris\u00e3o. Assim, o clipe torna-se, aqui, o objeto central de an\u00e1lise, entendido como obra audiovisual que reinstaura a dignidade do artista a partir de suas imagens de aclama\u00e7\u00e3o junto ao povo, ressignificando em alguma medida os sentidos atribu\u00eddos ao funk na esfera p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal contextualiza\u00e7\u00e3o dos fatos que antecedem a obra se faz importante, pois &#8211; tendo como base o pensamento de Christine Mello -, tensiona aspectos dos <em>extremos do mundo<\/em> \u2013 entendidos aqui como a criminaliza\u00e7\u00e3o racista de um g\u00eanero musical criado e consumido majoritariamente por pessoas negras e de origem perif\u00e9rica \u2013 com as <em>extremidades da linguagem do v\u00eddeo,<\/em> que, passa agora por um duplo processo de dobra: o primeiro, sendo inerente ao pr\u00f3prio momento em que \u00e9 produzido, considerando todas as mudan\u00e7as que a internet trouxe para a produ\u00e7\u00e3o e consumo de videoclipes, ou seja: a l\u00f3gica do videoclipe veiculado em canais de televis\u00e3o como a MTV, sem um maior poder de decis\u00e3o do receptor de escolha, quando ou como assistir caiu por terra h\u00e1 tempos: hoje, o indiv\u00edduo decide qual, quando, como e onde acessar um videoclipe, e o que o leva ao conhecimento de um trabalho de tal natureza s\u00e3o muitas vezes cortes aos quais \u00e9 exposto atrav\u00e9s da l\u00f3gica algor\u00edtmica da <em>timeline <\/em>de uma rede social, de maneira que, por n\u00e3o haver uma programa\u00e7\u00e3o &#8211; e aqui falamos de grade hor\u00e1ria televisiva \u2013 um v\u00eddeo produzido pode desaparecer na enxurrada de conte\u00fados e imagens produzidos e publicados diariamente nas redes, sobretudo a depender da l\u00f3gica de algoritmos racistas que regem tais redes e desfavorecem a visibiliza\u00e7\u00e3o de conte\u00fados de corpos negros (SILVA, 2022), mas por outro lado, a depender de seu impacto, tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel atingir um p\u00fablico muito maior, sem a restri\u00e7\u00e3o de uma transmiss\u00e3o local, como ocorreria com um videoclipe na TV. Analisar essa dobra, que \u00e9 comum do momento em que vivemos, \u00e9 levar em considera\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas a m\u00e9trica da <em>audi\u00eancia<\/em>, mas ainda mais importante que isso, considerar o <em>engajamento<\/em>, o que, em um v\u00eddeo de teor pol\u00edtico como este, tem fundamental import\u00e2ncia, pois trata da <em>ag\u00eancia<\/em> de pessoas em rede, sob a forma de <em>compartilhamento.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">O compartilhamento do v\u00eddeo diz respeito \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es que ocorrem na produ\u00e7\u00e3o, na recep\u00e7\u00e3o e na distribui\u00e7\u00e3o do v\u00eddeo. (&#8230;) O compartilhamento do v\u00eddeo representa sua passagem de uma narrativa acabada para a constru\u00e7\u00e3o din\u00e2mica e interativa da narrativa. (MELLO, p. 195 e 196, 2008)<\/p>\n\n\n\n<p>Essa constru\u00e7\u00e3o din\u00e2mica citada por Mello, se d\u00e1 desde a origem do fato, sob vi\u00e9s racista, em suas repercuss\u00f5es nas redes, entretanto, passa a ser revertida a partir da tomada de atitude de pessoas que agem contra o justi\u00e7amento de Poze, se amplifica na constru\u00e7\u00e3o da contranarrativa criada em \u201cDesabafo 2\u201d e culmina na interatividade ap\u00f3s sua publica\u00e7\u00e3o, como veremos mais \u00e0 frente, no pr\u00f3ximo intert\u00edtulo.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda dobra, sendo esta a que evidencia a singularidade de \u201cDesabafo 2\u201d, \u00e9 o rompimento da l\u00f3gica do videoclipe como um mero an\u00fancio da m\u00fasica como produto, inclusive porque tal m\u00fasica n\u00e3o foi previamente planejada, de modo que tal v\u00eddeo jamais poderia ser pensado sob uma l\u00f3gica de mera pe\u00e7a de divulga\u00e7\u00e3o; aqui, falamos de um manifesto de Poze do Rodo, produzido e publicado de forma urgente, no \u201ccalor do momento\u201d, como contra-ataque est\u00e9tico \u00e0s imagens geradas na pris\u00e3o do artista. Aqui ambas as dobras se complementam, uma vez que uma obra como essa s\u00f3 poderia ser criada no momento em que vivemos, no qual as facilidades tecnol\u00f3gicas de filmagem, edi\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o est\u00e3o \u00e0 m\u00e3o do artista (sem ou com poucos intermedi\u00e1rios), desconstruindo a l\u00f3gica anterior de produ\u00e7\u00e3o industrial a que os artistas se viam submetidos, na qual todas as estruturas t\u00e9cnicas, bem como o tempo de produ\u00e7\u00e3o, eram maiores e mais caros, sem a possibilidade de tal contra-ataque est\u00e9tico na velocidade necess\u00e1ria, uma velocidade de not\u00edcia, de pauta quente.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal contra-ataque n\u00e3o \u00e9 eficiente por negar as imagens de <em>suposi\u00e7\u00e3o de criminalidade<\/em> a que o artista foi submetido; pelo contr\u00e1rio: a narrativa que \u00e9 constru\u00edda as abriga, de modo a, tanto documentar e contextualizar a viol\u00eancia ocorrida, quanto usar essas mesmas imagens para sustentar sua resposta, com base nos desdobramentos dos fatos, tamb\u00e9m registrados em v\u00eddeo. Sobre a suposi\u00e7\u00e3o de criminalidade, Tarciz\u00edo Silva nos diz:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Suposi\u00e7\u00e3o de criminalidade. <\/em>No caso das popula\u00e7\u00f5es brasileiras, esta \u00e9 uma das microagress\u00f5es mais pervasivas. Trata da suposi\u00e7\u00e3o de que uma pessoa racializada tem mais chance de ser \u201cperigosa, criminosa ou desviante, com base em sua ra\u00e7a\u201d, e suas manifesta\u00e7\u00f5es presenciais s\u00e3o bem conhecidas pela popula\u00e7\u00e3o negra. (SILVA, p.42, 2022)<\/p>\n\n\n\n<p>A maneira como o diretor do v\u00eddeo Igor Vargas e o produtor musical Portugal no Beat evidenciam e questionam essa <em>suposi\u00e7\u00e3o de criminalidade <\/em>\u00e9, tanto no campo da imagem visual, reproduzindo v\u00eddeos da abordagem policial \u2013 agressiva, na qual o MC sem camisa \u00e9 algemado dentro de sua casa &#8211; e a cobertura jornal\u00edstica da pris\u00e3o &#8211; espetacularizada &#8211; em preto e branco, desfocadas e em baixa qualidade; &nbsp;quanto no campo da imagem sonora; a voz da jornalista que cobre a pris\u00e3o em uma das not\u00edcias veiculadas na m\u00eddia tem seu <em>pitch<\/em> distorcido de forma exagerada para o agudo, causando estranhamento e tirando credibilidade da forma como, e do que \u00e9 dito sobre a pris\u00e3o. A not\u00edcia \u201coficial\u201d aqui perde credibilidade e vira piada na m\u00e3o dos artistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um corte, passamos \u00e0 imagem de Marlon indignado, j\u00e1 liberto, dando seu depoimento para a rede Record de televis\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Eu tive minha luta, fui atr\u00e1s, corri, pra construir meu castelo. N\u00e3o \u00e9 com dinheiro de nada de errado n\u00e3o. \u00c9 com a minha luta, com o meu choro, valeu? Mais uma vez provando pra voc\u00eas que eu sou artista. Ent\u00e3o para de me perseguir. Me deixa em paz, porra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">(MC POZE DO RODO em entrevista \u00e0 Rede Record de Televis\u00e3o, em 3 de junho de 2025)<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui a imagem, ainda em preto e branco, entretanto \u00e9 limpa, em alta qualidade de defini\u00e7\u00e3o, bem como o \u00e1udio da voz do artista, conferindo firmeza, indigna\u00e7\u00e3o e um sentido de reivindica\u00e7\u00e3o de dignidade ao emissor da mensagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">IMAGEM &#8211; Pris\u00e3o do MC Poze do Rodo <\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"644\" height=\"359\" src=\"https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2025\/08\/image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" style=\"width:817px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2025\/08\/image.png 644w, https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2025\/08\/image-300x167.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 644px) 100vw, 644px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">FIGURA 1 \u2013 Print de tela do videoclipe \u201cDesabafo 2\u201d de MC Poze do Rodo<\/p>\n\n\n\n<p>As sequ\u00eancias seguintes, j\u00e1 com a letra da m\u00fasica, que relata tais acontecimentos, passa a ser colorida, como a passagem de um outro tempo, j\u00e1 superado \u2013 um pesadelo, talvez \u2013 para o presente da situa\u00e7\u00e3o, na qual se v\u00ea a imagem da placa do Complexo Penitenci\u00e1rio de Gericin\u00f3, onde Poze ficou detido, muito brevemente, como quem se despede sem saudades. Tal imagem \u00e9 substitu\u00edda por uma sequ\u00eancia de imagens de distribui\u00e7\u00e3o de cestas b\u00e1sicas realizadas pelo artista em \u00e1reas carentes, seguidas do reencontro deste com sua fam\u00edlia, e por fim, uma longa s\u00e9rie de <em>takes<\/em> do artista retornando para casa, com a metade superior do corpo para fora do teto solar de um carro de luxo, em cortejo, acompanhado por seus f\u00e3s e apoiadores, pelas ruas da cidade, parte a p\u00e9, parte em motocicletas, e at\u00e9 mesmo em uma carro\u00e7a, como ocorre com um esportista vencedor \u2013 um dos her\u00f3is de nosso tempo \u2013 ao retornar para casa ap\u00f3s uma conquista. Seu desfile \u00e9 acompanhado tamb\u00e9m por carros de pol\u00edcia, helic\u00f3pteros, por\u00e9m agora, cumprindo fun\u00e7\u00e3o de escolta, provendo algum sentido de manuten\u00e7\u00e3o de ordem social, agora \u201ca servi\u00e7o do artista\u201d. Nas imagens Poze est\u00e1, a princ\u00edpio. com uma camiseta branca, mas logo aparece j\u00e1 sem camisa, desnudo da cintura para cima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;IMAGEM \u2013 Desfile em comemora\u00e7\u00e3o \u00e0 soltura do MC Poze do Rodo<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"722\" height=\"402\" src=\"https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2025\/08\/image-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-20\" style=\"width:840px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2025\/08\/image-1.png 722w, https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2025\/08\/image-1-300x167.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 722px) 100vw, 722px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; FIGURA 2 \u2013 Print de tela do videoclipe \u201cDesabafo 2\u201d de MC Poze do Rodo<\/p>\n\n\n\n<p>No tocante a este aspecto, \u00e9 importante destacar tal desconstru\u00e7\u00e3o; vamos da imagem do criminalizado, pego desprevenido e sendo detido no espa\u00e7o privado de seu lar, por\u00e9m privado da dignidade de se vestir adequadamente para se apresentar \u00e0 pol\u00edcia, para a imagem do her\u00f3i, festejado, agora sem camisa por escolha pr\u00f3pria no espa\u00e7o p\u00fablico, porque est\u00e1 \u00e0 vontade, se v\u00ea entre os seus, como se estivesse em sua comunidade. A cidade, ap\u00f3s seu per\u00edodo de priva\u00e7\u00e3o de liberdade, volta a ser sua, e ele, da mesma forma, se reintegra \u00e0 cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>E aqui voltamos \u00e0 ag\u00eancia das pessoas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua pris\u00e3o sob a forma de compartilhamento: o que torna t\u00e3o verdadeira e efetiva a exist\u00eancia do videoclipe \u201cDesabafo 2\u2019 enquanto manifesto art\u00edstico e pol\u00edtico, s\u00e3o os desdobramentos que o mesmo confirma: sua pris\u00e3o causou enorme como\u00e7\u00e3o e debate nas redes, o que gerou engajamento, levando pessoas impactadas pela obra de Rodo \u00e0 a\u00e7\u00e3o: estas pessoas \u2013 ou ao menos parte delas, as que moram na cidade do Rio de Janeiro &#8211; e que exerceram press\u00e3o para sua soltura nas redes, estavam presentes no momento de sua liberta\u00e7\u00e3o, dando esteio para sua soltura; quando o videoclipe \u00e9 lan\u00e7ado, uma nova onda de apoio se configura atrav\u00e9s do engajamento da audi\u00eancia: em menos de 24 horas o v\u00eddeo tem mais de 900.000 visualiza\u00e7\u00f5es, e no momento da escrita deste texto, menos de tr\u00eas semanas ap\u00f3s o lan\u00e7amento, seus n\u00fameros passam de 8.362.673 acessos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>IMAGENS DE RACISMO E IMAGENS DE RESIST\u00caNCIA<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>&nbsp;&nbsp;<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Para tratar de \u201cDesabafo 2\u201d e como o racismo e a luta antirracista, se instauram nas redes, as atravessam e ensaiam um falso movimento de retorno para a realidade material \u2013 falso porque ao fim e ao cabo tais for\u00e7as nunca deixaram de habit\u00e1-la -, mas que encontram nas redes digitais condi\u00e7\u00f5es para sua potencializa\u00e7\u00e3o pelas imagens geradas e compartilhadas nelas, analisaremos duas ocorr\u00eancias relacionadas a tudo o que o v\u00eddeo trata. Antes disso, entretanto, consideremos o pensamento de Tarc\u00edzio Silva a partir de uma perspectiva mais ampla:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">A desumaniza\u00e7\u00e3o, o resgate ou a manuten\u00e7\u00e3o de humanidade plena dos indiv\u00edduos passam por entender as contranarrativas em jogo, tanto como hist\u00f3ria quanto como projetos de coletividade. Podemos conectar o pensamento antirracista sobre a tecnologia n\u00e3o apenas como cr\u00edtica, mas tamb\u00e9m em prol de novas emerg\u00eancias que tenham como prerrogativa rejeitar potenciais de opress\u00e3o. (SILVA, p. 210, 2022)<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, se faz necess\u00e1rio olhar para a difus\u00e3o de um acontecimento de cunho racial, social, mas tamb\u00e9m midi\u00e1tico nas redes com este olhar, que n\u00e3o separa epis\u00f3dios de racismo e suas repercuss\u00f5es \u2013 inclusive virtuais &#8211; como fato isolado, mas sim como partes integrantes da vida, com implica\u00e7\u00f5es e consequ\u00eancias que v\u00e3o de um lado a outro, entre a realidade material e as redes digitais. Feita tal considera\u00e7\u00e3o, continuemos com a an\u00e1lise, agora, entretanto, em car\u00e1ter comparativo, entre os coment\u00e1rios de dois v\u00eddeos distintos.<\/p>\n\n\n\n<p>Como h\u00e1 um recorte de p\u00fablico pr\u00f3prio do artista em suas publica\u00e7\u00f5es, antes de olhar para as rea\u00e7\u00f5es em rede de seus f\u00e3s nos coment\u00e1rios da pr\u00f3pria publica\u00e7\u00e3o de \u201cDesabafo 2\u201d, propomos uma visada \u00e0s rea\u00e7\u00f5es e coment\u00e1rios \u00e0 pris\u00e3o de Poze do Rodo em uma not\u00edcia da pris\u00e3o do artista no Jornal SBT Brasil, referente \u00e0 edi\u00e7\u00e3o do dia 29 de maio de 2005 e postada pela emissora SBT em seu canal de not\u00edcias no Youtube \u201cSBT News\u201d. O intuito \u00e9 olhar para um outro recorte de p\u00fablico, e como tal p\u00fablico reagiu ao ataque de criminaliza\u00e7\u00e3o sofrido pelo cantor. Assim, ao olharmos para uma das manifesta\u00e7\u00f5es do ataque, conseguiremos dimensionar a for\u00e7a de \u201cDesabafo 2\u201d enquanto contra-ataque est\u00e9tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao considerarmos um pequeno recorte dos coment\u00e1rios da not\u00edcia postada pela emissora de TV, nos deparamos com a quase total homogeneidade de opini\u00f5es e gracejos de sua audi\u00eancia como: \u201cImagina os policiais chegando l\u00e1 e falando \u201cfica na pose\u201d\u2019; um outro usu\u00e1rio da plataforma o desqualifica: \u201cComo pode um sujeito desse sem talento nenhum ser famoso, ter f\u00e3s e ganhar milh\u00f5es? \u00d4 pa\u00eds miser\u00e1vel!!\u201d; um terceiro dispara: \u201cNovidade nenhuma. Pra um pa\u00eds que endeusa esses animais\u201d; a lista de gracejos segue: \u201cO cara voou t\u00e3o alto que acabou caindo atr\u00e1s das grades kkkkkkkk\u201d; ou ainda, se referindo ao trecho de \u201cA cara do crime (n\u00f3s incomoda)\u201d, um dos sucessos do cantor: &#8220;&#8221;Ela fala que quer crime, eu sou criminoso&#8221; \ud83c\udfb6 kkkkkkkkkkkkkkkkk.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>E os coment\u00e1rios seguem entre o tom de deboche, como endosso \u00e0 criminaliza\u00e7\u00e3o de Poze, e o desmerecimento \u00e0 sua m\u00fasica e \u00e0 sua pessoa. Silva, ao tra\u00e7ar uma taxonomia do racismo online em seu livro \u201cRacismo algor\u00edtmico: intelig\u00eancia artificial e discrimina\u00e7\u00e3o nas redes digitais\u201d (2022), nos aponta diversas categorias de racismo, mas daremos especial aten\u00e7\u00e3o a dois tipos nesse caso assim definidos pelo pesquisador:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Micro insultos&nbsp; &#8211; <\/em>texto, v\u00eddeo, imagens, s\u00edmbolos, atribui\u00e7\u00e3o de n\u00edvel de intelig\u00eancia, cidad\u00e3o de segunda classe, patologiza\u00e7\u00e3o da valores culturais e suposi\u00e7\u00e3o de criminalidade.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Vic\u00e1ria &#8211; <\/em>texto, v\u00eddeo, imagens, s\u00edmbolos, agress\u00f5es verbais ou visuais incluindo piadas sobre um grupo \u00e9tnico de uma pessoa, venda de livros e m\u00fasicas racistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">IMAGEM&nbsp; \u2013 Coment\u00e1rios jocosos na rede relativos \u00e0 pris\u00e3o de Poze do Rodo<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"905\" height=\"708\" src=\"https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2025\/08\/image-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-21\" srcset=\"https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2025\/08\/image-2.png 905w, https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2025\/08\/image-2-300x235.png 300w, https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2025\/08\/image-2-768x601.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 905px) 100vw, 905px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">FIGURA 3 \u2013 Print de tela da not\u00edcia \u201cMC Poze do Rodo \u00e9 preso acusado de envolvimento com fac\u00e7\u00e3o criminosa no RJ \u2013 SBT Brasil (29\/05\/2025) publicada no canal SBT News no YouTube.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, \u00e9 poss\u00edvel identificar, tanto manifesta\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter <em>micro insultantes<\/em>, quanto <em>vic\u00e1rias<\/em> em rela\u00e7\u00e3o a Poze do Rodo, sempre embasadas \u2013 no subtexto \u2013 naquilo que o estilo de m\u00fasica feito por ele representa: m\u00fasica perif\u00e9rica, negra, e portanto, sob esse vi\u00e9s racista, intelectualmente inferior e criminosa. Assim, a pris\u00e3o de um MC de funk, negro e de origem perif\u00e9rica, independentemente de ser justa ou injusta, se torna, de forma autom\u00e1tica, digna de piadas, desmerecimentos e condena\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias sob uma l\u00f3gica estritamente racista e discriminat\u00f3ria nas redes digitais.<\/p>\n\n\n\n<p>Feito este desvio necess\u00e1rio, podemos retornar ao objeto da an\u00e1lise: o videoclipe de \u201cDesabafo 2\u201d, que foi recebido em tom de celebra\u00e7\u00e3o e de apoio por parte dos f\u00e3s do artista e da comunidade funkeira como um todo. Frases como \u201cMC N\u00c3O \u00c9 BANDIDO! PZ \u270d\ud83c\udffd\ud83d\ude4f\ud83c\udffd\u201d; &#8211; e que consta do pr\u00f3prio manifesto -, \u201c\u2018O que faz eles tremer \u00e9 o brilho do meu olhar\u2026\u2019 Pra cima PZ \ud83d\ude80\ud83c\udfc1\u270a\ud83c\udffd\u2019\u201d; e ainda: \u201cJ\u00e1 ouvi essa m\u00fasica umas mil vezes. Isso me viciou \u2764\ufe0f\ud83c\udf89\u201d d\u00e3o o tom dos coment\u00e1rios na publica\u00e7\u00e3o do v\u00eddeo. O n\u00edvel de engajamento tamb\u00e9m evidencia a for\u00e7a da obra; enquanto a publica\u00e7\u00e3o da not\u00edcia citada anteriormente com os coment\u00e1rios depreciativos soma 297.559 visualiza\u00e7\u00f5es na data de escrita deste texto, como j\u00e1 dito \u201cDesabafo 2\u201d soma mais de 8 milh\u00f5es e meio de visualiza\u00e7\u00f5es. Tomando essa m\u00e9trica como refer\u00eancia, \u00e9 poss\u00edvel ter uma no\u00e7\u00e3o da propor\u00e7\u00e3o do engajamento que um contra-ataque ao \u00f3dio, feito de forma bem articulada pode alcan\u00e7ar, quando pessoas em situa\u00e7\u00e3o de borda se veem representadas por um manifesto art\u00edstico que de contempla problemas que tamb\u00e9m as atinge \u2013 como abusos policias e racismo -, e isso as mobiliza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">IMAGEM&nbsp; &#8211; Coment\u00e1rios de apoio e aprova\u00e7\u00e3o a \u201cDesabafo 2\u201d&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"546\" height=\"388\" src=\"https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2025\/08\/image-3.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-22\" style=\"width:698px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2025\/08\/image-3.png 546w, https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2025\/08\/image-3-300x213.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 546px) 100vw, 546px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">FIGURA 4 &#8211; Print de tela de coment\u00e1rios na publica\u00e7\u00e3o de \u201cDesabafo 2\u201d no Youtube<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS&nbsp;&nbsp;<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>O que percebemos, por meio da articula\u00e7\u00e3o entre arte, pol\u00edtica e m\u00eddia, sob uma an\u00e1lise de borda, que desloca o objeto em an\u00e1lise de uma perspectiva hegem\u00f4nica para um campo inst\u00e1vel e em crise em que tal v\u00eddeo se inscreve, como preconiza a abordagem das extremidades de Mello, \u00e9 que o videoclipe \u201cDesabafo 2\u201d de MC Poze do Rodo opera como <strong>contra-ataque \u00e0s imagens de criminaliza\u00e7\u00e3o,<\/strong> n\u00e3o apenas respondendo \u00e0 viol\u00eancia simb\u00f3lica que tentou sumariamente enquadrar o artista como criminoso, sem a tramita\u00e7\u00e3o devida de um processo legal, mas tamb\u00e9m inscrevendo um novo corpo e uma nova narrativa no imagin\u00e1rio social \u2014 uma narrativa de supera\u00e7\u00e3o, for\u00e7a comunit\u00e1ria-coletiva e reinvindica\u00e7\u00e3o de dignidade. Ao fazer isso, o clipe reafirma o funk como linguagem est\u00e9tica e pol\u00edtica pulsante, que resiste \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o e opera como pot\u00eancia cultural nas bordas da cultura hegem\u00f4nica.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra contribui\u00e7\u00e3o da obra videogr\u00e1fica em quest\u00e3o, \u00e9 a de criar um importante precedente catalisador de uma manifesta\u00e7\u00e3o popular potente em torno de uma injusti\u00e7a cometida com um artista negro, em um g\u00eanero musical que n\u00e3o apenas nasce, cresce e caminha junto com o povo perif\u00e9rico, mas que tamb\u00e9m sofre junto cont\u00ednuas amea\u00e7as e interdi\u00e7\u00f5es. Assim, quando o direito de liberdade de express\u00e3o sofre ataques, e os canais de comunica\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nicos assumem posturas enviesadas, negando a possibilidade de uma cobertura imparcial dos fatos, tal precedente mostra que os artistas do funk, em uni\u00e3o com o seu p\u00fablico, conseguem gerar e compartilhar contranarrativas est\u00e9ticas que possam disputar espa\u00e7o com injustas imagens de criminaliza\u00e7\u00e3o pr\u00e9-concebidas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>&nbsp;<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><strong>CYMROT, Danilo.<\/strong> <em>O funk na batida: baile, rua e parlamento.<\/em> S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Sesc, 2022.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>MBEMBE, Achille.<\/strong> <em>Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Negra<\/em>. S\u00e3o Paulo: N-1 Edi\u00e7\u00f5es, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>MC POZE DO RODO.<\/strong> <em>Desabafo 2<\/em>. Dire\u00e7\u00e3o: Igor Vargas. Produ\u00e7\u00e3o musical: Portugal no Beat. Mainstreet Records; Maze Company, 2025. Videoclipe (4min30s). Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=XXXXXXX\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=XXXXXXX<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Acesso em: 22 jun. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>MELLO, Christine.<\/strong> Abordagem das extremidades entre linguagens e mundos. <em>Extremidades.art<\/em>, 7 nov. 2024. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/2024\/11\/07\/abordagem-das-extremidades-entre-linguagens-e-mundos\/\">https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/2024\/11\/07\/abordagem-das-extremidades-entre-linguagens-e-mundos\/<\/a>. Acesso em: 22 jun. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>MELLO, Christine.<\/strong> <em>Extremidades do v\u00eddeo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Senac S\u00e3o Paulo, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>SILVA, Tarc\u00edzio.<\/strong> <em>Racismo algor\u00edtmico: intelig\u00eancia artificial e discrimina\u00e7\u00e3o nas redes digitais<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editorial Medusa, 2022.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>SBT NEWS.<\/strong> <em>MC Poze do Rodo \u00e9 preso acusado de envolvimento com fac\u00e7\u00e3o criminosa no RJ \u2013 SBT Brasil (29\/05\/2025)<\/em>. Corte de v\u00eddeo do telejornal SBT Brasil, edi\u00e7\u00e3o de 29 de maio de<\/p>\n\n\n\n<p>2025. V\u00eddeo (3min09s). Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=eV1PQ_la1lI<\/p>\n\n\n\n<p>Acesso em: 22 jun. 2025.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lindolfo Roberto Nascimento (PUC-SP) Christine Mello (PUC-SP\/UERJ) Revista para publica\u00e7\u00e3o: CONCINNITAS (PPGARTES\/UERJ) RESUMO Utilizando a abordagem das extremidades (MELLO, 2017) como jogo de leitura, analisaremos o videoclipe &#8220;Desabafo 2\u201d de MC Poze do Rodo (2025), de modo a compreender como tal produ\u00e7\u00e3o audiovisual produz imagens de contra-ataque \u00e0 criminaliza\u00e7\u00e3o do funk (CYMROT, 2022), atrav\u00e9s do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-1","post","type-post","status-publish","hentry","category-seminariosdolabdeescrita"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":103,"href":"https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1\/revisions\/103"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/extremidades.art\/x\/regimesdesentidonaspoeticas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}