{"id":1709,"date":"2025-06-12T00:59:14","date_gmt":"2025-06-12T03:59:14","guid":{"rendered":"https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/?p=1709"},"modified":"2025-06-12T01:31:42","modified_gmt":"2025-06-12T04:31:42","slug":"imagem-e-som-em-crise-procedimentos-investigativos-da-videoinstalacao-de-cristiana-miranda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/2025\/06\/12\/imagem-e-som-em-crise-procedimentos-investigativos-da-videoinstalacao-de-cristiana-miranda\/","title":{"rendered":"Imagem e som em crise: procedimentos investigativos da videoinstala\u00e7\u00e3o de Cristiana Miranda"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right has-medium-font-size\"><strong>Christine Mello<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">A partir dos <strong>procedimentos investigativos<\/strong> da videoinstala\u00e7\u00e3o<br>Os passos semeiam o caminho, de Cristiana Miranda (Rio de<br>Janeiro, 1966), s\u00e3o observados certos modos como as<br>tecnologias de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o da imagem e do som s\u00e3o<br>colocadas em crise. A artista investiga as antigas trilhas<br>ind\u00edgenas existentes na Serra do Mar, localizadas no estado do<br>Rio de Janeiro, constru\u00eddas antes mesmo da invas\u00e3o dos<br>europeus. Por meio de caminhada e de experi\u00eancia audiovisual<br>expandida, busca recuperar os corpos, as presen\u00e7as e as<br>hist\u00f3rias n\u00e3o apenas das na\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, mas tamb\u00e9m dos<br>in\u00fameros quilombos que com elas viviam em colabora\u00e7\u00e3o<br>durante o per\u00edodo colonial e imperial, reconectando-os, com tal<br>gesto, ao tempo presente. A pergunta que se coloca \u00e9: <strong>como os<br>procedimentos investigativos de desconstru\u00e7\u00e3o e<br>contamina\u00e7\u00e3o tensionam a investiga\u00e7\u00e3o po\u00e9tica por meio de<br>outros modos de se pensar as tecnologias de produ\u00e7\u00e3o e<br>circula\u00e7\u00e3o da imagem e do som?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><br> Trata-se da an\u00e1lise de um conjunto de opera\u00e7\u00f5es (2024-2025) relacionadas ao<br>processo po\u00e9tico-art\u00edstico de Cristiana Miranda ( https:\/\/vimeo.com\/crismiranda), que<br>culminam com a apresenta\u00e7\u00e3o da obra em 2026. <strong>Tais procedimentos investigativos<\/strong><br>combinam experimenta\u00e7\u00e3o e pesquisa cr\u00edtica, baseados em:<\/p>\n\n\n\n<p><br>resid\u00eancia art\u00edstica na regi\u00e3o da Serra do Mar, no interior do Rio de Janeiro;<br>pesquisa hist\u00f3rica de arquivo;<br>pesquisa t\u00e9cnica de captura e processamento de imagem f\u00edlmica;<br>experi\u00eancia performativa de caminhada em antigas trilhas ind\u00edgenas;<br>captura de imagens, sons e res\u00edduos durante as caminhadas;<br>revela\u00e7\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o do material;<br>levantamento e an\u00e1lise das condi\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas de como dever\u00e1 ser<br>projetado o ambiente instalativo.<br><br>         Estes procedimentos investigativos s\u00e3o relevantes na constitui\u00e7\u00e3o de percep\u00e7\u00e3o<br>e experi\u00eancia das camadas de ancestralidade que destacam a Mata Atl\u00e2ntica como<br>monumento apagado, invis\u00edvel, de muitas culturas que nela tiveram exist\u00eancia. Neste<br>contexto, o interesse pela captura de imagens, sons e res\u00edduos nos territ\u00f3rios da<br>floresta reside menos na documenta\u00e7\u00e3o audiovisual das caminhadas e mais na<br>incorpora\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplas temporalidades a serem agenciadas na videoinstala\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><br>        O problema da imagem e som em crise se estabelece, desse modo, na<br>preval\u00eancia dos regimes de presen\u00e7a de tais procedimentos em detrimento dos seus<br>regimes de sentido. A imagem e som s\u00e3o institu\u00eddos, assim, nas rupturas com os seus<br>planos de visualidade e sonoridade, se tornando relevantes por meio da performance<br>da artista na floresta, como estrat\u00e9gia de apresentar mais o que presentificam do que<br>mostrar o que representam.<\/p>\n\n\n\n<p><br>        Para abordar tais quest\u00f5es, destacaremos qualidades operat\u00f3rias e conceituais<br>relacionadas a tais procedimentos investigativos, no caso, a desconstru\u00e7\u00e3o e a<br>contamina\u00e7\u00e3o, com o objetivo de refletirmos certos modos como as tecnologias de<br>produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o da imagem e som se expressam em crise, nesta obra, por meio<br>das interrela\u00e7\u00f5es entre a performance,o audiovisual expandido e a arte contempor\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p><br>        Trata-se de contextualizar uma esfera de experimenta\u00e7\u00e3o, em que h\u00e1 a<br>consci\u00eancia de que os modos hegem\u00f4nicos relacionados a tais tecnologias perdem<br>hoje em dia a pot\u00eancia de comunica\u00e7\u00e3o, a experi\u00eancia de encontro, a condi\u00e7\u00e3o de<br>fazer vibrar a linguagem. Com isso, diante de imagens e sons contra-hegem\u00f4nicos, \u00e9<br>necess\u00e1rio, na pr\u00e1tica art\u00edstica, a retomada de procedimentos investigativos, como<br>estrat\u00e9gia de ressignifica\u00e7\u00e3o, voltados ao encontro de outras formas de perceber e<br>experimentar territ\u00f3rios e temporalidades presentes na Mata Atl\u00e2ntica.<br><br>        Em sua fase atual de experimenta\u00e7\u00e3o, Cristiana Miranda realiza resid\u00eancia<br>art\u00edstica e investiga as antigas trilhas ind\u00edgenas existentes na Serra do Mar,<br>localizadas no estado do Rio de Janeiro, constru\u00eddas antes mesmo da invas\u00e3o dos<br>europeus. A partir da caminhada nessas trilhas, ela gera tecnologias muito singulares<br>de captura de imagem e som, com o desejo de os colocar em circula\u00e7\u00e3o por meio<br>tanto de gestos performativos gerados com as caminhadas e a escuta atenta de seus<br>passos na floresta quanto experi\u00eancia audiovisual expandida, na arquitetura pensada<br>para o espa\u00e7o instalativo, para a videoinstala\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><br>      Embora relevante em todo o processo de caminhada nas antigas trilhas<br>ind\u00edgenas, a captura das imagens e sons situa-se como lugar de contato entre<br>realidades diferentes, como produ\u00e7\u00e3o de diferen\u00e7a e heterog\u00eanese, em especial no<br>que se refere ao contato das imagens das ru\u00ednas da floresta e dos saberes ancestrais<br>dos povos origin\u00e1rios e das comunidades quilombolas com o corpo da artista e com<br>a experi\u00eancia corp\u00f3rea dos visitantes da videoinstala\u00e7\u00e3o. Com as passadas nas<br>trilhas, h\u00e1 o contato ao longo do caminho com sonoridades pr\u00f3prias ao corpo da artista<br>em deslocamento e ao corpo da floresta. Desse modo, sua captura revela-se menos<br>estrat\u00e9gia de dom\u00ednio sonoro em torno de tais trilhas e mais de estranhamento e<br>afec\u00e7\u00e3o, apresentando-se como procedimento investigativo acerca do corpo e da<br>abordagem do outro.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"489\" height=\"272\" src=\"https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/06\/image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1710\" style=\"width:554px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/06\/image.png 489w, https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/06\/image-300x167.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 489px) 100vw, 489px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">FIGURA 1: Caminho de Peabiru. Serra do Mar, Mata Atl\u00e2ntica. Foto Gessiane<br>Pereira.<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Procedimentos investigativos de desconstru\u00e7\u00e3o<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p><br>     Os procedimentos desconstrutivos da investiga\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, de modo geral,<br>giram em torno da desmontagem de um significado para se obter outro. A corrente<br>desconstrutiva pretende que a apreens\u00e3o da realidade se d\u00ea pela experi\u00eancia<br>sens\u00f3ria, sendo o processo de descoberta nela dimensionado como campo de<br>testagem e experimentalismo.<\/p>\n\n\n\n<p><br>     A desconstru\u00e7\u00e3o como procedimento investigativo na proposta instalativa Os<br>passos semeiam o caminho, de Cristiana Miranda, evoca, em um primeiro momento,<br>o deslocamento de um estado da imagem e do som de um regime representacional<br>para um regime de presen\u00e7a, de uma narrativa discursiva para uma experi\u00eancia<br>performativa e sensorial, e, em um segundo momento, a revers\u00e3o, ressignifica\u00e7\u00e3o e<br>expans\u00e3o dos limites criativos das imagens e dos sons, colocando-os em crise, em<br>dire\u00e7\u00e3o \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o de outro imagin\u00e1rio em torno da presen\u00e7a da floresta, dos<br>povos ind\u00edgenas e das comunidades quilombolas.<\/p>\n\n\n\n<p><br>     Destaca, desse modo, os deslocamentos po\u00e9ticos das imagens e sons<br>capturados pela artista nas caminhadas pelas trilhas ind\u00edgenas, cujo contexto<br>hist\u00f3rico remete ao per\u00edodo pr\u00e9-colonial, colonial e imperial, para sua ressignifica\u00e7\u00e3o<br>na atualidade sob a forma de cr\u00edtica \u00e0 colonialidade.<\/p>\n\n\n\n<p><br>     Em sua perspectiva conceitual-po\u00e9tica, as imagens captadas em 16 mm s\u00e3o<br>feitas sob a forma de experimenta\u00e7\u00f5es em pel\u00edcula por meio de impress\u00e3o direta de<br>elementos residuais (como folhas e musgos) da floresta sobre emuls\u00e3o fotossens\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p><br>     Com os sons captados dos ru\u00eddos e dos passos dados pela artista na floresta,<br>s\u00e3o feitas experimenta\u00e7\u00f5es sonoras que desconstroem a separa\u00e7\u00e3o humanonatureza, objetivando constituir um ambiente cinem\u00e1tico-multissensorial-instalativo<br>que envolva o p\u00fablico e possibilite, com isso, ampliar a experi\u00eancia de presen\u00e7a da<br>floresta por meio do atravessamento sonoro da mesma em seus corpos.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"478\" height=\"358\" src=\"https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/06\/image-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1711\" style=\"width:472px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/06\/image-1.png 478w, https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/06\/image-1-300x225.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 478px) 100vw, 478px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">FIGURA 2: Processo de impress\u00e3o bot\u00e2nica por contato em pel\u00edcula 16 mm, de<br>Cristiana Miranda.<\/p>\n\n\n\n<p>Em tal tipo de pr\u00e1tica art\u00edstica, as conhecidas tecnologias hegem\u00f4nicas de<br>produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o da imagem e do som s\u00e3o desconstru\u00eddas em prol tanto de<br>saberes descentralizados acerca da produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica quanto da<br>incorpora\u00e7\u00e3o da sensorialidade por meio de agentes bot\u00e2nicos e temporalidades<br>ancestrais. <strong>Busca-se, com isso, recuperar os corpos, as presen\u00e7as vivas e as<br>hist\u00f3rias n\u00e3o apenas das na\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, mas tamb\u00e9m dos in\u00fameros quilombos<br>que com elas viviam em colabora\u00e7\u00e3o, ao longo da Mata Atl\u00e2ntica, durante o per\u00edodo<br>pr\u00e9-colonial, colonial e imperial, reconectando-os, com tal gesto, ao tempo presente.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><br>     O campo de problemas materiais e intersubjetivos \u00e9 articulado, portanto, entre as<br>afec\u00e7\u00f5es produzidas no decorrer das caminhadas, as experimenta\u00e7\u00f5es cinem\u00e1ticas e<br>sonoras e o ambiente instalativo. Por meio do corpo da artista e de seus passos,<br>sensa\u00e7\u00f5es e ru\u00eddos recolhidos ao longo das antigas trilhas da Serra do Mar, assim como<br>de experimenta\u00e7\u00f5es com linguagens audiovisuais anal\u00f3gicas e digitais, o efeito dessas<br>caminhadas objetiva provocar reconex\u00e3o tanto no processo de cria\u00e7\u00e3o da artista quanto<br>em quem acessar\u00e1 e vivenciar\u00e1 a experi\u00eancia na videoinstala\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><br>     Significa situar a experi\u00eancia a partir do efeito dos atravessamentos do corpo em ru\u00edna<br>da floresta, das sonoridades do corpo ancestral dos povos origin\u00e1rios e das comunidades<br>quilombolas, que integram um outro tempo, em suas rela\u00e7\u00f5es com o corpo da artista e do<br>p\u00fablico visitante, que integram o tempo presente.<\/p>\n\n\n\n<p><br> <strong>Em meio \u00e0 coexist\u00eancia de tais temporalidades e corporeidades m\u00faltiplas, o trabalho<br>suscita a pot\u00eancia da imagem e do som por meio da performatividade da caminhada ao longo da<br>floresta com o objetivo de ressignificar o cinema experimental, o cinema expandido e a arte<br>contempor\u00e2nea em suas curvas temporais e presen<\/strong>\u00e7as vivas.<\/p>\n\n\n\n<p><br>     Na partilha com as experi\u00eancias materiais e intersubjetivas realizadas na floresta, como<br>momento de troca e sensorialidade, Cristiana Miranda prop\u00f5e em seus procedimentos<br>investigativos desconstrutivos que o espa\u00e7o da exposi\u00e7\u00e3o \u2013 no caso, da videoinstala\u00e7\u00e3o<br>\u2013 compreenda o momento de reorganiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o sens\u00f3rio da caminhada, assim como<br>a expans\u00e3o do plano multissensorial da imagem e do som para o plano do ambiente junto<br>ao p\u00fablico visitante.<\/p>\n\n\n\n<p><br>     Nessa dire\u00e7\u00e3o, a proposta da arquitetura instalativa de Os passos semeiam o caminho<br>pretende explorar as condi\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas de como dever\u00e1 ser projetado o ambiente<br>sens\u00f3rio assim como pensar a estrat\u00e9gia formal de instala\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplas telas, preenchidas<br>tanto por imagens em movimento e som ambiente quanto por sensores sonoros que<br>presentificar\u00e3o a presen\u00e7a dos corpos dos visitantes em suas passadas no espa\u00e7o expositivo.<\/p>\n\n\n\n<p><br>     A ideia, com isso, n\u00e3o \u00e9 a de promover a disjun\u00e7\u00e3o entre o espa\u00e7o da floresta e o espa\u00e7o instalativo, mas de gerar uma conjun\u00e7\u00e3o, um gesto comum, in situ, entre um e outro espa\u00e7o, criando, desse modo, um ambiente vivencial, de car\u00e1ter imersivo-emersivo, onde o caminhar pela floresta seja<br>experimentado sob a forma de encontro, produzido por meio de corpos, imagens e sons,<br>afetos e rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><br>      Em sua forma expositiva, a investiga\u00e7\u00e3o po\u00e9tica prop\u00f5e colocar em crise tecnologias<br>de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o da imagem e do som ao reivindicar a desconstru\u00e7\u00e3o do plano visual<br>e sonoro das antigas trilhas existentes no territ\u00f3rio da Mata Atl\u00e2ntica, baseado em seus<br>regimes de sentido, na sua representa\u00e7\u00e3o, e constitu\u00eddo de acordo com a vis\u00e3o da<br>modernidade ocidental, para estabelecer, com esse mesmo territ\u00f3rio, predominantemente<br>rela\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas e conex\u00f5es entre ancestralidades e seres vivos humanos e n\u00e3o humanos,<br>como animais, \u00e1rvores, florestas e at\u00e9 montanhas, pedras e esp\u00edritos, baseados nas antigas<br>trilhas.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"287\" height=\"581\" src=\"https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/06\/image-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1712\" style=\"width:273px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/06\/image-2.png 287w, https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/06\/image-2-148x300.png 148w\" sizes=\"auto, (max-width: 287px) 100vw, 287px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">FIGURA 3: Santana das Palmeiras na Estrada do Com\u00e9rcio, Nova Igua\u00e7u, Rio<br>de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Miranda, como uma percep\u00e7\u00e3o desperta, a caminhada \u00e9 um tipo de<br>agenciamento que busca simultaneamente o encontro consigo mesmo e com o<br>coletivo. Sua proposta po\u00e9tica diz respeito, portanto, ao acesso a uma aten\u00e7\u00e3o<br>delicada, a uma viv\u00eancia sens\u00edvel, de cunho relacional, capaz de presentificar as<br>imagens e sons sob a forma do percurso do corpo pelo caminho, para <strong>uma conex\u00e3o<br>simultaneamente coletiva, corp\u00f3rea e imag\u00e9tica com o lugar.<br><\/strong><\/p>\n\n\n\n<ol start=\"2\" class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Procedimentos investigativos de contamina\u00e7\u00e3o: experimenta\u00e7\u00e3o material<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p><br>     A tem\u00e1tica da experimenta\u00e7\u00e3o material junto \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o art\u00edstica de Cristiana<br>Miranda \u00e9 aqui observada tomando como princ\u00edpio a contamina\u00e7\u00e3o entre linguagens.<br>Nessa dire\u00e7\u00e3o, \u00e9 importante observar esse procedimento investigativo como um tipo<br>de a\u00e7\u00e3o est\u00e9tica descentralizada em que a pot\u00eancia das linguagens tem lugar a partir<br>da amplia\u00e7\u00e3o das formas de contato entre linguagens diferentes. Para tanto, a<br>videoinstala\u00e7\u00e3o Os passos semeiam o caminho prop\u00f5e relacionar a performance dos<br>corpos entre a floresta e a videoinstala\u00e7\u00e3o de modo que imagem e o som sejam<br>operados em camadas temporais descont\u00ednuas, por\u00e9m contaminadas entre si, a partir<br>de conex\u00f5es sens\u00f3rias de estratos e fendas entre diferentes temporalidades,<br>comunidades e linguagens.<\/p>\n\n\n\n<p><br>      Na concep\u00e7\u00e3o de Cristiana Miranda, a est\u00e9tica de colocar em contato diferentes<br>processos de temporaliza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o baseia-se em uma pr\u00e1tica f\u00edlmica que usa a<br>tecnologia anal\u00f3gica para encontrar novos pontos de conex\u00e3o entre cinema e conceitos<br>pol\u00edticos, buscando uma liberta\u00e7\u00e3o das antigas formas de ver e experimentar o mundo.<br>Nessa pr\u00e1tica de cria\u00e7\u00e3o audiovisual, o filme \u00e9 utilizado como uma ferramenta art\u00edstica<br>capaz de comunicar, por meio de m\u00faltiplas materialidades, corpo e terra, humano e n\u00e3o<br>humano.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"488\" height=\"268\" src=\"https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/06\/image-3.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1713\" style=\"width:525px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/06\/image-3.png 488w, https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2025\/06\/image-3-300x165.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 488px) 100vw, 488px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>FIGURA 4: Processo de impress\u00e3o bot\u00e2nica por contato em pel\u00edcula 16 mm, de Cristiana Miranda<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme o pensamento art\u00edstico de Cristiana Miranda, tal procedimento<br>investigativo de contamina\u00e7\u00e3o se op\u00f5e, portanto, ao ilusionismo do cinema narrativo<br>hegem\u00f4nico em prol de um cinema da presen\u00e7a. Para ela, na est\u00e9tica do contato, ao<br>contr\u00e1rio, o filme \u00e9 utilizado como superf\u00edcie, mais do que como janela transparente,<br>e as pr\u00e1ticas de impress\u00e3o da imagem n\u00e3o se fazem unicamente atrav\u00e9s da c\u00e2mera<br>de filmar. Nesse tipo de est\u00e9tica f\u00edlmica presente em sua investiga\u00e7\u00e3o, a contamina\u00e7\u00e3o<br>entre corpos e temporalidades bem como as imagens geradas pela impress\u00e3o direta de<br>elementos sobre a emuls\u00e3o fotossens\u00edvel subvertem o aspecto mim\u00e9tico da<br>representa\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica ao dispensar a primazia da c\u00e2mera e criar por meio de<br>regimes de prese\u00e7a as impress\u00f5es corp\u00f3reas, os atravessamentos de tempo, mais<br>do que representa\u00e7\u00f5es em perspectiva (KNOWLES, Kim. Esth\u00e9tique du contact dans<br>la pratique contemporaine du film photochimique. In: DELLA NOCE, Elio; MURARI,<br>Lucas (orgs.). <strong>Expanded nature ecologies du cin\u00e9ma experimental.<\/strong> Paris: Light<br>Cone Editions, 2022, p. 64-66).<\/p>\n\n\n\n<p>3.<strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><br> Como um tipo de pr\u00e1tica art\u00edstica comprometida com a vida e seu entorno, a an\u00e1lise<br>dos procedimentos investigativos presentes da videoinstala\u00e7\u00e3o Os passos semeiam o<br>caminho mostra as estrat\u00e9gias da artista de desconstruir a primazia colonial dos campos<br>representacionais da vis\u00e3o e da audi\u00e7\u00e3o em prol de ativar, intensificar, no visitante, regimes de<br>presen\u00e7a com a imagem e som, em suas contamina\u00e7\u00f5es, rela\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas e conex\u00f5es entre<br>ancestralidades e seres vivos humanos e n\u00e3o humanos, como animais, \u00e1rvores, florestas e at\u00e9<br>montanhas, pedras e esp\u00edritos, baseados nas antigas trilhas ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p><br> A presente investiga\u00e7\u00e3o art\u00edstica de Cristiana Miranda tra\u00e7a, dessa maneira,<br>procedimentos conceituais-po\u00e9ticos desconstrutivos e contaminados que situam a imagem e<br>o som em crise por meio da ativa\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplas realidades, da expans\u00e3o de ecologias<br>midi\u00e1ticas e do corpo em performance, em presen\u00e7a, assim como outros modos de se pensar<br>suas tecnologias de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><br> \u00c9 movida pela compreens\u00e3o de que a urg\u00eancia n\u00e3o \u00e9 ver ou ouvir melhor ou mais<br>claramente, mas sim, produzir passos, como pontos de tens\u00e3o, em sua pot\u00eancia de linguagem<br>e de gera\u00e7\u00e3o de outros mundos poss\u00edveis, que semeiem o caminho de forma diferente, de<br>um outro lugar, com mais consci\u00eancia do processo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Christine Mello A partir dos procedimentos investigativos da videoinstala\u00e7\u00e3oOs passos semeiam o caminho, de Cristiana Miranda (Rio deJaneiro, 1966), s\u00e3o observados certos modos como astecnologias de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o da imagem e do som s\u00e3ocolocadas em crise. A artista investiga as antigas trilhasind\u00edgenas existentes na Serra do Mar, localizadas no estado doRio de Janeiro, constru\u00eddas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[17,18,19,20,21,25,26],"class_list":["post-1709","post","type-post","status-publish","hentry","category-pesquisa","tag-midia","tag-politica","tag-imagens","tag-redes-sociais","tag-audiovisual","tag-fim-do-mundo","tag-regimes-etico"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1709","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1709"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1709\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1721,"href":"https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1709\/revisions\/1721"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1709"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1709"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/extremidades.art\/x\/christinemello\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1709"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}